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Overview de Mercado

Fevereiro de 2026

Brasil na contramão do mundo

Fevereiro foi um mês de contrastes marcantes nos mercados globais. Enquanto o capital estrangeiro desembarcava com força no Brasil, impulsionando o Ibovespa a mais uma alta expressiva, Wall Street enfrentou uma onda de reavaliação sobre os bilhões investidos em inteligência artificial. De um lado, a expectativa de corte na Selic; do outro, um Fed dividido e tarifas de Trump escalando. O resultado foi um mês em que o dinheiro girou o mapa e colocou mercados emergentes de volta no radar.

Confira abaixo os destaques detalhados.


Destaques nacionais

1. Copom confirma rota de corte, mas guarda as cartas na manga

A ata da reunião de janeiro do Copom deixou o mercado com uma certeza e uma incógnita. A certeza: o ciclo de cortes da Selic começa em março, com a taxa saindo dos atuais 15% ao ano. A incógnita: o Banco Central não revelou nem o tamanho do primeiro corte nem a duração do ciclo.

A estratégia foi deliberada. Com a inflação de serviços ainda pressionada e o IPCA-15 de fevereiro em 0,84%, o BC optou por manter flexibilidade total. A comunicação evitou forward guidance, deixando cada decisão dependente dos dados seguintes. No mercado, gestores já discutem uma Selic mínima de 11% até o fim do ano, mas esse cenário exige confirmação nos próximos indicadores.

Impacto: A sinalização de corte favorece ativos domésticos sensíveis a juros, como fundos imobiliários e ações de setores ligados ao consumo. O gradualismo do BC, porém, limita apostas mais agressivas e mantém a curva de juros atenta a cada novo dado de inflação.

2. Ibovespa sobe 4,09% e atrai R$ 42,5 bilhões de capital estrangeiro no ano

O Ibovespa fechou fevereiro com alta de 4,09%, consolidando o melhor início de ano da bolsa brasileira em tempos recentes. O principal motor foi o fluxo estrangeiro: R$ 16 bilhões entraram na B3 só em fevereiro, elevando o acumulado de 2026 para R$ 42,5 bilhões, valor que já supera todo o ingresso registrado em 2025.

O dinheiro veio de uma combinação de fatores: valuations descontados frente a pares, expectativa de corte da Selic e um dólar mais fraco globalmente. Analistas do Bradesco, porém, alertaram que o fluxo ainda é predominantemente tático, sem representar uma mudança estrutural de alocação para o Brasil.

Impacto: O volume estrangeiro sustenta a bolsa e melhora a liquidez, mas também aumenta a dependência do mercado local de condições financeiras globais. Se o apetite por risco reverter, a saída pode ser tão rápida quanto a entrada.

3. IPCA-15 de 0,84% acende sinal amarelo antes do primeiro corte

O IPCA-15 de fevereiro registrou alta de 0,84%, patamar desconfortável para um Banco Central que se prepara para iniciar o ciclo de afrouxamento. O número, embora não tenha alterado a expectativa de corte em março, reduziu o espaço para um movimento inicial mais agressivo.

O resultado refletiu pressões sazonais em educação, combustíveis e alimentação, componentes que tendem a perder força nos meses seguintes. Ainda assim, o dado serviu de lembrete de que a desinflação brasileira não é linear e exige cautela nas projeções.

Impacto: O IPCA-15 reforçou a preferência do mercado por um BC gradualista e ajudou a calibrar expectativas para um primeiro corte de 0,25 a 0,50 ponto percentual. Investimentos em renda fixa pós-fixada seguem protegidos no curto prazo.

4. IGP-M entra em deflação e alivia pressão no atacado

O IGP-M recuou 0,73% em fevereiro, revertendo a alta de 0,41% de janeiro e levando o acumulado de 12 meses para -2,67%. A queda foi puxada pelo IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo), com tombos expressivos em matérias-primas como minério de ferro, soja e café.

O movimento reflete o recuo de commodities no mercado internacional e a safra agrícola robusta no Brasil. O IGP-DI seguiu a mesma direção, com queda de 0,84%, confirmando que a desinflação no atacado é ampla e não pontual.

Impacto: A deflação nos índices gerais de preços favorece contratos indexados ao IGP-M, como aluguéis e tarifas de concessão, e reforça o argumento de que há espaço para o BC iniciar os cortes. Para o investidor, é um dado construtivo para ativos de renda fixa real.

5. Safra recorde de grãos e recuperação forte do café

A Conab estimou a safra 2025/26 de grãos em 353,4 milhões de toneladas, novo recorde, com avanço de área plantada para 83,3 milhões de hectares. A projeção para o café também surpreendeu: 66,2 milhões de sacas, alta de 17,1% sobre o ano anterior, impulsionada pela bienalidade positiva.

No comércio exterior, o agronegócio exportou US$ 10,8 bilhões em janeiro, mantendo participação relevante na pauta exportadora. O volume cresceu, mas a receita foi limitada pela queda nos preços médios internacionais.

Impacto: A oferta robusta pressiona preços domésticos de alimentos e contribui para a desinflação ao consumidor. A safra recorde de café, em particular, pode aliviar parte da pressão que elevou preços nas gôndolas ao longo de 2025.

6. STJ derruba teto de contribuições a terceiros e eleva risco tributário

O Superior Tribunal de Justiça derrubou o teto de 20 salários mínimos para a base de cálculo das contribuições a terceiros (Sistema S, Incra, Sebrae). A decisão amplia o potencial de cobrança sobre a folha de pagamento e atinge em cheio empresas intensivas em mão de obra.

O julgamento fez parte de uma agenda carregada nos tribunais superiores: o STJ tem 33 teses tributárias vinculantes pendentes, e no mesmo mês o ministro Fachin levou ao plenário a discussão sobre dividendos sem incidência de IR.

Impacto: Empresas com contencioso tributário relevante podem precisar aumentar provisões, o que afeta resultado e valuation. Setores como varejo, construção civil e serviços são os mais sensíveis. O investidor deve acompanhar a evolução dessas teses nos próximos meses.

7. Fundos imobiliários ganham tração com liquidez 49,8% maior

O mercado de fundos imobiliários abriu 2026 com vigor renovado. A negociação diária cresceu 49,8% nos dois primeiros meses do ano, segundo a B3, e o patrimônio do segmento se aproximou de R$ 200 bilhões. A bolsa anunciou ainda o desenvolvimento de derivativos de FIIs, sinalizando amadurecimento da classe.

O impulso veio da combinação entre deságios ainda elevados nos fundos de tijolo, expectativa de queda de juros e busca por renda mensal. Em fevereiro, 173 fundos anunciaram distribuição de dividendos.

Impacto: O aumento de liquidez reduz o custo de entrada e saída e torna os FIIs mais atraentes para investidores institucionais. Com a perspectiva de Selic em queda, fundos de tijolo e fundos de fundos tendem a se beneficiar da reprecificação das cotas.

Destaques internacionais

1. Fed congela juros e ata revela divisão sobre próximo passo

O Federal Reserve manteve os juros na faixa de 3,50% a 3,75%, após ter cortado 75 pontos-base ao longo de 2025. A surpresa de fevereiro veio da ata: vários membros admitiram a possibilidade de subir juros caso a inflação trave acima da meta. O PPI de janeiro, com alta de 0,5% contra consenso de 0,3%, reforçou a cautela.

O mercado reagiu postergando a expectativa do próximo corte para meados do ano. A ferramenta FedWatch passou a precificar 94% de chance de manutenção em março. Enquanto isso, um membro dissidente defendeu quatro cortes em 2026, mantendo o debate aberto.

Impacto: O tom hawkish do Fed pressiona ativos de duration longa e favorece alocações mais defensivas. Para o investidor brasileiro, a pausa americana amplia o diferencial de juros e ajuda a sustentar o fluxo para mercados emergentes.

2. Tarifas de Trump escalam de 10% para 15% e atingem exportações brasileiras

A guerra comercial de Trump ganhou nova escalada em fevereiro. Após entrada em vigor de uma sobretaxa de 10%, a Casa Branca elevou a alíquota para 15% na sequência de um revés na Suprema Corte. O impacto direto atingiu cerca de um quarto das exportações brasileiras para os EUA.

A reação global foi imediata: a China pediu diálogo e o fim das tarifas, enquanto o governo brasileiro sinalizou que o Brasil poderia se beneficiar relativamente da medida em alguns nichos. A Suprema Corte manteve a disputa em aberto, prolongando a incerteza.

Impacto: Tarifas mais altas elevam a aversão ao risco em ativos ligados ao comércio global. Exportadores brasileiros com dependência do mercado americano enfrentam pressão adicional, mas a diversificação geográfica pode abrir oportunidades em mercados alternativos.

3. Big techs investem US$ 660 bilhões em IA e mercado cobra retorno

As grandes empresas de tecnologia elevaram seus gastos em inteligência artificial para US$ 660 bilhões, um valor comparável ao PIB trimestral do Brasil. O montante reacendeu o debate sobre excesso de investimento e falta de monetização proporcional. O mercado respondeu com o que analistas chamaram de "Armagedom do software": o ETF de software (IGV) caiu 9,9% só em fevereiro.

A conta começou a pesar especialmente nas Sete Magníficas, cujo índice recuou 7,3% no mês. A dispersão aumentou: enquanto a Apple avançou na reavaliação da tese de IA, a Microsoft recuou.

Impacto: O setor de tecnologia deixa de subir em bloco e passa a exigir prova de monetização da IA. O momento sugere cautela com exposição concentrada em growth americano e atenção à seletividade entre as gigantes.

4. Rotação histórica: dinheiro sai de growth e vai para value nos EUA

Fevereiro registrou uma das maiores rotações internas do mercado americano dos últimos anos. Enquanto o S&P 500 ponderado por valor de mercado caiu 0,9%, a versão equal-weight subiu 3,5%. O Russell 1000 Value avançou 2,6%, contra queda de 3,4% do Russell 1000 Growth.

Os setores defensivos lideraram: Utilities (+10,3%), Energia (+9,4%) e Materiais (+8,4%). Na outra ponta, Tecnologia (-3,9%), Serviços de Comunicação (-5,1%) e Consumo Discricionário (-5,4%) foram os mais penalizados.

Impacto: A rotação sinaliza que o mercado está reprecificando o risco de concentração nas big techs. O ambiente favorece exposição a setores de valor e empresas com geração de caixa comprovada, em detrimento de teses de crescimento dependentes de narrativa.

5. Europa surpreende: PMI industrial no melhor nível em quase 4 anos

O PMI composto da zona do euro subiu para 51,9 em fevereiro, com destaque para a indústria, que atingiu o melhor nível em 44 meses. O PIB do bloco cresceu 0,2% no quarto trimestre de 2025, evitando recessão técnica, e a inflação ficou em 2,0%, exatamente na meta do BCE.

A combinação de dados levou investidores a reposicionar carteiras a favor de ações europeias cíclicas. O Euro Stoxx 50 subiu 3,0%, com bancos e industriais puxando a alta.

Impacto: A melhora da atividade europeia reduz o risco de estagnação prolongada e abre espaço para setores cíclicos e exportadores. A Europa volta a competir por alocação global em um momento em que os EUA enfrentam questionamentos sobre valuations.

6. Nikkei dispara 10,4% com normalização do BOJ e rali de semicondutores

O Nikkei 225 teve o melhor desempenho global em fevereiro, com alta de 10,4%. O rali foi alimentado por dois vetores: a normalização monetária do Banco do Japão, que manteve a taxa em 0,75% com viés de alta, e a forte recuperação do setor de semicondutores na Ásia.

O BOJ deu mais um passo na saída dos estímulos ao iniciar a venda de ETFs acumulados nos anos de política ultraexpansionista. A medida marca uma mudança estrutural: pela primeira vez em décadas, o banco central japonês reduz sua presença direta na bolsa.

Impacto: O Japão se posiciona como alternativa para diversificação internacional. A normalização do BOJ tende a fortalecer o iene e favorecer setores financeiros, embora exportadoras fiquem mais sensíveis ao câmbio.

7. Bitcoin recua de US$ 80 mil para US$ 65 mil em correção disseminada

O mercado de criptomoedas abriu fevereiro com US$ 2,4 bilhões em liquidações em um único dia, e o Bitcoin caiu de cerca de US$ 80 mil para testar o suporte de US$ 65 mil na reta final do mês. A correção atingiu também Ethereum e Solana, configurando um sell-off amplo no setor.

A pressão veio de múltiplas frentes: aversão ao risco global com tarifas, tensão geopolítica entre EUA e Irã, e reavaliação do papel do Bitcoin como proteção. O ativo não funcionou como porto seguro nos momentos de maior estresse.

Impacto: A correção reforça a volatilidade inerente ao mercado cripto e serve como lembrete de que o Bitcoin segue correlacionado a ativos de risco em momentos de estresse. Investidores com posição devem considerar o sizing e a convivência com oscilações bruscas.

Análises e insights

Brasil na contramão

Em um mês em que Wall Street tropeçou e as big techs enfrentaram questionamentos sobre bilhões investidos sem retorno visível, o Brasil viveu uma realidade diferente. O Ibovespa subiu 4,09% enquanto o Nasdaq caía 3,4% e o S&P 500 recuava 0,9%. O capital estrangeiro somou R$ 42,5 bilhões no ano, mais do que todo o fluxo de 2025. E a Selic, a 15%, começou a sinalizar o início de um ciclo de cortes.

Essa aparente contradição tem lógica. O dinheiro global buscou alternativas ao trade concentrado em tecnologia americana, e o Brasil apareceu no radar por uma combinação rara de fatores: valuations descontados, perspectiva de queda de juros, safra recorde sustentando o agronegócio e um dólar mais fraco que torna ativos emergentes mais atrativos.

Mas é preciso calibrar o entusiasmo. O Bradesco alertou que esse fluxo é predominantemente tático, vindo de fundos que buscam oportunidades de curto prazo, e não de investidores institucionais refazendo alocação estrutural para o Brasil. A diferença importa: capital tático entra rápido, mas sai na mesma velocidade se o cenário global mudar.

O desafio para os próximos meses será transformar essa janela em algo mais duradouro. O início dos cortes da Selic, se conduzido com credibilidade pelo BC, pode ser o catalisador. Mas o IPCA-15 de 0,84% e a incerteza sobre o ritmo do ciclo mostram que o caminho não será em linha reta. O cenário favorece o Brasil, mas exige paciência e diversificação.


Esses foram os principais destaques de fevereiro. Um mês que reforçou a importância da diversificação: enquanto parte do mercado global enfrentou correção, o Brasil se destacou como destino de capital e se prepara para um novo ciclo monetário. Acompanhar a evolução dos dados será fundamental nas próximas semanas. Conte conosco para acompanhar as movimentações que impactam seus investimentos!

Até breve,

Yuri Veras CavalcanteCFP®

Sócio e CCO da Aplix Capital Group

Planejador financeiro certificado (CFP®), acompanha o cenário econômico e assina a leitura mensal da Aplix sobre mercados e patrimônio.

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